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segunda-feira, 23 de junho de 2014

Incesto real

Conta-se que, ao pisar na Espanha pela primeira vez, Carlos 5º, do Sacro Império Romano-Germânico, ouviu o grito de um homem do povo: "Majestade, feche a boca, pois as moscas deste país são muito insolentes". Corria o ano de 1517, e o abusado camponês, se existiu, percebeu de cara um defeito no nobre nascido na cidade de Gante (atual Bélgica) que vinha assumir o trono espanhol. Carlos 5º (e 1º da Espanha), que lá estava como herdeiro de seus avós maternos, Isabel 1ª de Castela e Fernando 2º de Aragão, os chamados Reis Católicos, era dono de um queixo descomunal. Tanto que não conseguia unir os lábios e impedir o acesso de possíveis insetos voadores, ficando com o ar apalermado, que teria motivado o gracejo do petulante plebeu.
Seu feio trineto Carlos 2º da Espanha, além da coroa, levou de brinde a deformação óssea da face conhecida como prognatismo - a mandíbula se projeta em relação ao maxilar e o lábio inferior se torna mais saliente. No caso de Carlos 2º, o queixão acarretava dificuldades de mastigação e de fala. Os Carlos, você deve ter reparado, partilhavam de um defeito genético. Estigma marcante durante séculos nos Habsburgos, a poderosa dinastia originária da Suíça, à qual pertenciam os dois monarcas, o prognatismo ficou tão identificado com a família que é conhecido também como mandíbula ou lábio de Habsburgo ou de Áustria. Os rostos desses e de outros soberanos - Filipe 4º da Espanha, pai de Carlos 2º, por exemplo - estão bem documentados em pinturas. Considerada a hipótese de que os pintores de corte - mesmo um mestre como Diego Velázquez - amenizavam os traços para não irritar seus retratados, é possível imaginar queixadas mais avantajadas ainda. 

O culpado de tudo isso - o primeiro Habsburgo prognata - foi possivelmente Ernesto 1º da Áustria (1377-1424). Se a praxe fosse buscar gente de outras origens para os casamentos, o gene queixudo de Ernesto encontraria novos DNA s e provavelmente sumiria em sua descendência. Acontece que os Habsburgos, como outros nobres, apreciavam matrimônios com parentes, a endogamia. Era um jeito de preservar o sangue azul e estabelecer alianças políticas. A falta de "sangue novo" na herança genética, no entanto, perpetuava (e acentuava) características físicas indesejáveis, provocava o surgimento de doenças congênitas e aumentava a mortalidade infantil naquelas famílias.


Geneticistas espanhóis traçaram a árvore genealógica de Carlos 2º e constataram que sua carga genética era equivalente à de um incesto entre irmãos ou entre pais e filhos. "Provavelmente, o gene do prognatismo atuava combinado com outros, o que fazia com que alguns dos Habsburgos apresentassem a má-formação e outros não", afirma Jaime Anger, cirurgião plástico do Hospital Israelita Albert Einstein de São Paulo. 

O prognatismo aberrante não era a única desgraça de Carlos 2º, sugestivamente alcunhado de "o Enfeitiçado". Só começou a andar aos 4 anos e tinha desarranjos intestinais e febres, além de certo atraso mental. De todas as mazelas, nada superou, para fins dinásticos, sua incapacidade de gerar um herdeiro em seus dois casamentos - Carlos seria estéril. Quando morreu, aos 38 anos, aparentava uma idade muito mais avançada. 

Além do célebre queixo de Habsburgo, discute- se a presença de outros males de origem genética transmitidos pelos repetidos casamentos entre parentes das dinastias europeias. A porfiria, um distúrbio do metabolismo, permaneceu por muito tempo sendo a explicação para a insanidade mental do rei George 3º do Reino Unido (1738-1820). Nos anos 1960, apareceram artigos com títulos como A Insanidade do Rei George 3º: Um Caso Clássico de Porfiria e Porfiria nas Casas Reais de Stuart, Hanôver e Prússia, escritos pelos psiquiatras e historiadores Ida Macalpine e Richard Hunter. Segundo essa visão, Mary Stuart (1542-1587) seria a primeira personalidade documentada a passar a enfermidade adiante em sua árvore genealógica. No entanto, há outras hipóteses para a instabilidade de George - em cujo reinado os Estados Unidos se tornaram independentes dos ingleses. Já na década de 40, falava-se em psicose maníaco-depressiva. Timothy Peters, da Universidade de Birmingham, num estudo do ano passado, prefere considerar a possibilidade de transtorno bipolar. Como a porfiria não tem uma manifestação visual facilmente identificável em pinturas e não se desenterraram os nobres para fazer um diagnóstico retrospectivo, cravar explicações científicas definitivas é mais difícil que no caso do escancarado prognatismo mandibular. 

Outra enfermidade que foi tida como praga endogâmica é a hemofilia, que teria se espalhado como verdadeira "doença real" por culpa da rainha Vitória do Reino Unido (1819-1901). Há que se considerar dois fatos. Primeiro, que Vitória provavelmente não herdou o gene hemofílico dos costumeiros matrimônios entre parentes - no caso dela, teria ocorrido uma mutação cromossômica espontânea. Outra é que casamentos entre primos (Vitória se casou com um de primeiro grau, Albert) raramente aumentam as chances de uma possível transmissão desse transtorno da coagulação sanguínea. Isso posto, Vitória, de fato, legou a hemofilia a algumas pessoas de sua farta descendência. Entre elas, figura o bisneto Alexei Nikolaevich Romanov, herdeiro do trono russo assassinado em 1918, aos 13 anos, pelos bolcheviques. Tudo isso era especulação até 2009, quando se publicaram os resultados de exames de DNA feitos em ossos dos Romanovs descobertos dois anos antes. Comprovado: Vitória passou ao menino que não foi czar a hemofilia B, segundo tipo mais comum da doença.


O rei "Paquita"

Características como elevado apetite sexual e loucura foram associadas aos Bourbons ao longo do tempo. O rei Fernando 6º da Espanha (1713-1759) teria transado com a mulher agonizante, Bárbara de Bragança. Seu meio-irmão e sucessor, Carlos 3º, era obsessivo: fazia tudo sempre exatamente nos mesmos horários. A mandíbula de Áustria, em virtude de ancestrais comuns, também se fez presente no rosto dos Bourbons. 

Como os Habsburgos, eles também se casaram muito entre si. Uma das histórias mais curiosas está ligada à rainha Isabel 2ª da Espanha (1830-1904) e ao seu marido, o rei consorte Francisco 1º (1822-1902). Ambos eram primos em dose dupla - o pai dele era irmão do pai dela, e a mãe dele era irmã da mãe dela. Acontece que Francisco era gay, e Isabel começou a pular a cerca. Nos salões e nas ruas de Madri, Francisco tinha o apelido de Paquita (Chiquinha). Existe até a possibilidade de os 11 filhos de Isabel (só 5 chegaram à idade adulta) não serem de Francisco. Por essa tese, o rei Afonso 12, bisavô do rei atual, Juan Carlos 1º, seria fruto de um caso de Isabel com o capitão Enrique Puigmoltó. Se assim foi, as traições de Isabel serviram como antídoto contra os males da endogamia bourbônica.

Clã internacional

A instituição do matrimônio consanguíneo levou à formação de um grande clã internacional de monarcas. O inglês e o russo médios tinham (e ainda têm) tipos físicos distintos, mas o mesmo se podia dizer de dois soberanos que reinavam separados por milhares de quilômetros. George 5º do Reino Unido (1865-1936) e o czar Nicolau 2º da Rússia (1868-1918) eram netos do rei Christian 9º da Dinamarca, apelidado de “o sogro da Europa” graças ao sucesso dos casamentos políticos de seus filhos. Os primos George e Nicolau mais pareciam gêmeos (veja foto na pág. ao lado). Em 1893, quando George, então príncipe e duque de York, casou-se, a plebe presente à cerimônia, em Londres, chegou a se confundir ao ver o convidado Nicolau. 

Por essa época, a mandíbula de Habsburgo já havia cruzado o oceano e chegado ao Brasil. Produto de casamentos entre parentes e com diferentes sobrenomes dinásticos nas costas – Bragança, Orleans, Habsburgo, Bourbon -, o nosso dom Pedro 2º (1825-1891) também foi prognata. Seu avô, dom João 6º, era filho de um tio com uma sobrinha. Seu pai, dom Pedro 1º, e sua mãe, a imperatriz Leopoldina (filha do imperador do Sacro Império Romano-Germânico e, portanto, Habsburgo de alta linhagem), eram primos em segundo grau. João, Pedro e Leopoldina tinham o queixo deslocado para a frente. Em As Barbas do Imperador, a antropóloga Lilia Moritz Schwarcz defende que Pedro 2º deixou os pelos crescerem no rosto para parecer mais velho e respeitável. Reza outra lenda que o visual servia mesmo para camuflar o queixão.


A endogamia, no entanto, não se restringiu às monarquias europeias. Exemplos são encontrados no Egito antigo, onde havia casamentos entre irmãos. Cleópatra casou-se com dois, o Ptolomeu 13 e o 14. Em Roma, ocorriam enlaces entre primos, caso de Nero e Claudia Octavia. Há indícios de que os incas na América do Sul também casavam irmãos e irmãs sem drama de consciência Ainda que haja nobres que gostem de se casar entre si, existe uma diversificação bem maior de fontes conjugais. O rei Eduardo 8º, em dezembro de 1936, abdicou do trono britânico para se unir a Wallis Simpson, uma americana duas vezes divorciada. Quem ficou no seu lugar foi George 6º, o gago retratado no filme O Discurso do Rei e pai da rainha Elizabeth. Filipe de Bourbon, filho de Juan Carlos 1º da Espanha e da rainha Sofia, casou-se em 2004 com a plebeia Letizia Ortiz. O príncipe William, filho de Charles e Diana, encontrou nos corredores da faculdade sua carametade, Kate Middleton. A outrora fechada família europeia de monarcas, de uns tempos para cá, é capaz até de aceitar em seu seio um descendente do lendário e irreverente camponês espanhol. Aquele do mosquito na boca do rei. 

Como fazíamos sem cama?


O chão era o limite enquanto o homem ainda não havia descoberto uma das suas mais importantes invenções: a cama. Antes de nossos ancestrais desenvolverem a capacidade de construir artefatos, eles deitavan no solo úmido e ficavam sujeitos a inundações e ataques de bichos rastejantes. Na melhor das hipóteses, dormiam sobre peles de animais ou montes de palha. Embora conseguissem maior conforto, permanecia a incômoda proximidade da terra. Era preciso se colocar acima dessas adversidades.

No antigo Egito, as pessoas já conseguiam dormir melhor. Um dos tesouros encontrados na tumba de Tutancâmon é uma cama de madeira dobrável. Acredita-se que o modelo era utilizado em viagens e campanhas de guerra. Sua engenhosidade não se perdeu com o tempo e, ainda hoje, o objeto é facilmente reduzido a um terço de seu tamanho. Mas poucas pessoas tinham acesso a tamanho privilégio. Ao contrário do resto da população, somente os faraós e nobres usavam camas para dormir ou mesas e cadeiras para comer.

Nos séculos seguintes, a cama continuou sendo utilizada não apenas para descanso, mas também como local de refeições. Uma aplicação que teve seu ápice com os romanos, acostumados a celebrar banquetes deitados em divãs semicirculares ou em forma de ferradura, repletos de almofadas.

Com o avanço da Idade Média e a compartimentação dos ambientes da casa, a cama foi recolhida ao quarto de dormir. Para se proteger do frio, os europeus passaram a utilizar um modelo herdado dos persas: o dossel, um leito cercado por colunas de madeira e cortinas de tecido.

Outras sociedades encontraram formas diferentes de repousar. Os índios preferem as redes e os japoneses gostam de futons (colchões espessos e dobráveis) sobre tatames. Ao longo do tempo, o móvel permaneceu com inúmeros usos, todos voltados para o descanso e o prazer. Não é à toa que, em vários idiomas, "ir para a cama" também pode ser sinônimo de fazer amor.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Simón Bolívar: sonho de liberdade

"Juro pelo amor do Deus de meus pais. Juro por eles. Juro pela minha honra e juro pela minha pátria que não darei descanso a meu braço, nem repouso a minha alma, até que haja rompido as correntes que nos oprimem por vontade do poder espanhol!” Esse compromisso, assumido por Simón Bolívar quando ele tinha pouco mais de 20 anos, foi levado às últimas conseqüências. O Libertador, como ficou conhecido, coordenou as campanhas militares responsáveis pela independência de cinco países sul-americanos: Colômbia, Venezuela, Equador, Peru e Bolívia. Vitorioso, passou a lutar pela união das nações latino-americanas e por justiça social. Em pouco tempo, essas causas acabariam levando-o à ruína.
Bolívar nasceu em Caracas, na então América Espanhola, no dia 24 de julho de 1783. Sua família pertencia à elite da colônia. Perdeu o pai aos 3 anos e a mãe aos 9. Aos 15, foi enviado a Madri para concluir os estudos. Na capital da metrópole, ele conheceu a espanhola Maria Teresa Toro, com quem se casou em 1802. Retornou para Caracas, onde poderia ter vivido em paz cuidando dos negócios familiares. Mas a fatalidade voltaria a castigá-lo: dez meses depois de chegar à América, sua esposa morreu de tuberculose. Bolívar decidiu nunca mais se casar. A causa da independência se tornaria, assim, sua principal paixão. Em 1805, Bolívar fez uma viagem a pé pela Itália junto com seu tutor Simón Rodríguez. Diante dele, no alto do monte Sacro, em Roma, Bolívar fez o juramento que abre este texto. No ano seguinte, voltou à sua terra natal. Estava pronto para a primeira grande luta de sua vida.
Na América do Sul, a administração espanhola tinha três vice-reinados: Nova Granada (que englobava as áreas do Equador e da Colômbia), Peru e Rio da Prata (território onde ficam hoje Argentina, Uruguai, parte da Bolívia e Paraguai). Além disso, havia duas capitanias-gerais: Venezuela e Chile. Três fatos influenciaram o surgimento dos ideais libertários nesses territórios: a independência dos Estados Unidos, a Revolução Francesa e as conquistas napoleônicas na Europa. Em 1810, enquanto a decadente monarquia espanhola sucumbia ao poder de Napoleão, um grupo de conspiradores que ficaria conhecido como “patriotas” aproveitou para tomar o poder na Venezuela. O jovem Bolívar participou da ação.
A independência venezuelana foi declarada em 5 de julho de 1811, pelo comandante Francisco de Miranda. Ele havia lutado na independência americana e, depois, foi general no exército revolucionário francês. Mesmo com essas credenciais, Miranda não pôde impedir a retomada de Caracas pelos grupos que apoiavam a monarquia espanhola, os chamados “realistas”. Um armistício que devolvia o poder aos espanhóis foi assinado em 1812 – por causa desse acordo, Miranda acabaria sendo considerado traidor e preso pelo próprio Bolívar.
A Venezuela havia caído, mas Nova Granada continuava livre do domínio espanhol. Foi lá que Bolívar se estabeleceu, depois de se refugiar em Curaçao. Nomeado coronel do exército rebelde, ganhou fama ao libertar diversas províncias. Promovido a general, em 1813 ele partiu em direção a Caracas com apenas 800 homens, contra os 15 mil do exército realista. Cidade por cidade, Bolívar engrossou sua legião – foi nessa época que ganhou o apelido de Libertador. Em agosto do mesmo ano, ele proclamou a Segunda República da Venezuela. Mas a vitória ainda estava distante.
Em 1815, os espanhóis enviaram seu maior militar, Pablo Morillo, e um exército de 11 mil homens à Venezuela. “Nunca, em toda a história de dominação e conflitos na América, a Espanha havia mandado para o continente um exército mais numeroso e bem equipado do que esse”, afirma o historiador Carlos Landazuri Camacho, da Pontifícia Universidade Católica do Equador. Diante de tamanha força ofensiva, que logo recuperou as possessões espanholas, o Libertador foi obrigado a se refugiar no Caribe (nessa época, escreveu a “Carta da Jamaica”, em que apresentava os princípios de sua Revolução Sul-Americana).
Correntes rompidas
Com reforços conseguidos na América Central, o general retornou ao continente. Suas forças eram compostas principalmente por crioulos (descendentes de espanhóis nascidos na América), índios e escravos. Bolívar contou também com o apoio de soldados enviados pela Inglaterra. A ajuda não era gratuita. Os britânicos, que viviam a Revolução Industrial, precisavam de novos mercados para vender seus produtos – e isso esbarrava no monopólio comercial espanhol.
A Colômbia foi o primeiro país que as forças de Bolívar conseguiram libertar de uma vez por todas. Isso aconteceu na Batalha de Boyacá, em 7 de agosto de 1819. Isolado por Bolívar, o exército realista foi encarregado de tomar a ponte de Boyacá e seguir até Bogotá. Ao saber da movimentação, Bolívar deslocou suas tropas para o local. No confronto, 210 realistas foram mortos ou feridos e 1600 feitos prisioneiros. Bolívar ocupou a capital sem resistência no dia 8 e mandou colunas para libertar as demais províncias. Derrotado, o general Morillo retornou à Espanha em 1820.
Em 24 de junho de 1821, a terra de Bolívar presenciou, enfim, o confronto que a tornaria independente: a Batalha de Carabobo, travada numa região de savanas perto de Caracas. Para tomar a capital venezuelana, Bolívar esperava juntar 10 mil homens, mas apenas 6 400 conseguiram suportar a dura marcha até lá. Os espanhóis esperavam os rebeldes com fortificações, artilharia e 5 500 homens. Após examinar o posicionamento do inimigo, o Libertador surpreendeu: enviou uma divisão para atacar por um terreno aparentemente intransponível. A manobra confundiu os realistas, que, abordados por outros flancos, bateram em retirada. Em 28 de junho, Bolívar entrou triunfante em sua cidade natal, recebido com entusiasmo pelo povo, que o chamava de “Pai da Pátria”.
O Equador conseguiu sua liberdade graças à Batalha de Pichincha, em 24 de maio de 1822. Antes de partir para Carabobo, Bolívar havia mandado um exército de mil homens, liderado pelo jovem tenente Antonio José de Sucre, tomar a província de Guayaquil dos espanhóis e incorporá-la à nação livre batizada de Grande Colômbia – que também incluía a Venezuela. Vitorioso, Sucre partiu para fazer o mesmo em Quito. Na noite de 23 de maio de 1822, seu exército escalou o vulcão Pichincha, a 4 600 metros do nível do mar, e se posicionou ao norte da cidade. Na manhã seguinte, os espanhóis atacaram. Foram esmagados. Cerca de 1100 soldados e 290 oficiais realistas foram capturados e Quito foi ocupada pelas forças independentes.
No Peru, o general argentino José de San Martín já havia declarado a independência em 1821. Os espanhóis não desistiram de seu mais rico vice-reinado e ainda ocupavam a serra central e sul do território com um exército de 20 mil homens. Depois que os realistas retomaram a capital, Lima, em 5 de fevereiro de 1824, Bolívar foi chamado para expulsá-los. Com a vitória na Batalha de Junín, em 6 de agosto, a maior parte do Peru foi libertada. O comandante enviou Sucre, promovido a marechal, para eliminar os últimos focos de resistência, o que ele fez em 9 de dezembro, na Batalha de Ayacucho. Foi o último confronto entre patriotas e realistas. Os espanhóis capitularam diante da independência de sua última colônia na América do Sul.
Livres, os povos das regiões altiplanas do Peru se recusaram a fazer parte da nova nação. Sucre, então, sugeriu que as províncias do Alto Peru criassem um novo país. Assim fizeram. Em 6 de agosto de 1825, a região altiplana passou a se chamar “Bolívia”, em homenagem ao Libertador. A capital boliviana, por sua vez, foi batizada de “Sucre”.
Inimigos internos
Ao retornar vitorioso do campo de batalha, indo do Peru até Bogotá, o general sofreu ao testemunhar a miséria da população. “Bolívar se pergunta que sentido faz, logo após uma luta tão dura e heróica, os povos viverem em situações piores do que as que padeciam sob a dominação espanhola”, diz o historiador colombiano Juvenal Herrera Torres no livro Bolívar, el Hombre de América (inédito no Brasil). Ele se propôs, então, a criar uma sociedade mais igualitária nos países independentes. Promoveu a educação gratuita, reduziu os salários dos parlamentares e acabou com os privilégios concedidos à Igreja. Na política, entretanto, o Libertador não era tão democrático. “O igualitarismo de Bolívar era reduzido. Ele não concordava com o voto de negros, pobres e mulheres”, diz Isaac Bigio, analista internacional da London School of Economics, na Inglaterra.
Na economia, Bolívar foi radical. Fez uma extensa reforma agrária, que devolveu aos índios as terras das quais seus antepassados haviam sido expulsos. Nacionalizou as minas particulares e publicou decretos para proteger florestas e rios. Atitudes como essas renderam ao Libertador alguns novos apelidos (como “chefe da negrada e da indiada”) e muitos novos inimigos. “Os donos dos privilégios herdados da velha ordem colonial se uniram contra os projetos de Bolívar”, afirma Torres. Em 1828, diante da oposição, ele assumiu poderes ditatoriais sobre a Grande Colômbia. Empenhada em manchar sua imagem, a elite passou a acusá-lo de ser “inimigo da democracia”. O líder dessa oposição era um ex-aliado do general: o vice-presidente Francisco de Paula Santander, comandante de tropas durante a expulsão dos espanhóis.
Bolívar também foi capaz de criar inimigos fora da Colômbia, pois afrontava as potências estrangeiras. Ele propunha a criação da Confederação dos Países Latino-Americanos, que serviria para defender a região da exploração inglesa, francesa e, quem diria, americana. Os jovens Estados Unidos, que tinham servido como modelo, agora incomodavam Bolívar por causa de sua vocação intervencionista. Numa carta de 5 de agosto de 1829, ele escreveu: “Os Estados Unidos parecem destinados pela Providência a empestear a América de misérias em nome da liberdade”. Os americanos fizeram de tudo para sabotar a Confederação, que acabou não saindo do papel.
Em vez de se unir, a antiga América Espanhola começou a se fragmentar. Em novembro de 1829, a Venezuela se separou da Grande Colômbia – o Equador seguiria o mesmo caminho no ano seguinte. O novo governo venezuelano decidiu banir Bolívar do país. Criar uma América do Sul soberana e progressista havia se mostrado bem mais difícil do que libertá-la. Em abril de 1830, vendo que sua presença no poder era uma ameaça à paz, Bolívar renunciou à presidência da Colômbia. Sucre, seu óbvio sucessor, acabou sendo assassinado em julho. O autor do tiro nunca foi pego.
Imerso em sua luta por liberdade e igualdade, Bolívar não se preocupara em acumular riquezas ou manter suas posses. Escrevendo a um amigo, em 20 de setembro de 1830, disse: “Estou velho, doente, cansado, desenganado, caluniado e mal pago. Não peço nenhuma recompensa além do repouso e da conservação da minha honra. Por desgraça, é isso o que eu não consigo”. Bolívar morreu pobre e no abandono, vítima de tuberculose, no dia 17 de dezembro daquele ano, em Santa Marta, Colômbia.

Rebeldes com causa

Sucre e San Martín também se destacaram entre os heróis da independência na América do Sul
O venezuelano Antonio José de Sucre foi o maior aliado de Bolívar – e um dos poucos que não o traíram no fim. Nascido em 1795, em Cumaná, na Venezuela, o rico Sucre estudava engenharia quando explodiu a revolta de Francisco de Miranda. Com apenas 15 anos, alistou-se no exército rebelde. Sua inteligência e devoção chamaram logo a atenção de Bolívar, que o transformou em seu homem de confiança – muitos o consideram um estrategista melhor que o próprio Libertador. Sucre foi o primeiro presidente do Peru e, depois, governou a Bolívia por dois anos. Para evitar que ele sucedesse Bolívar na Colômbia, seus inimigos reformaram a Constituição em 1830, limitando para 40 anos a idade mínima do presidente – Sucre tinha 35. No mesmo ano, foi assassinado numa cilada na serra de Berruecos, na Colômbia. Enquanto Bolívar e Sucre combatiam os espanhóis, o general José de San Martín fazia o mesmo, mais ao sul. Em 1812, ele libertou sua terra natal, que viria a se chamar Argentina, e, em 1818, o Chile. Em 26 de julho de 1822, San Martín e Bolívar se encontraram, a sós, em Guayaquil. Ambos tinham pontos de vista distintos. Bolívar incorporara o Equador à Grande Colômbia, mas San Martín o queria como parte do Peru. Depois do encontro, o argentino deixou para o Libertador a tarefa de concluir a expulsão dos espanhóis das terras peruanas. Bolívar, San Martín e Sucre serviram de inspiração para que, em 1960, a Confederação Sul-Americana de Futebol batizasse seu torneio anual entre times de Libertadores da América – o rol de homenageados inclui também Bernardo O’Higgins, que lutou pelo Chile, José Gervasio Artigas, libertador do Uruguai, e o nosso Dom Pedro I.

Como ressuscitar um mártir

Também militar e venezuelano, Hugo Chávez se inspira em Bolívar
Atualmente, a Bolívia não é a única nação que carrega a marca do Libertador em seu próprio nome. Em 1999, o presidente Hugo Chávez conseguiu aprovar uma Constituição que mudou a descrição oficial de seu país para República Bolivariana da Venezuela. Naquele ano, ele discursou dizendo que “Bolívar é o eixo central da ideologia venezuelana e também de muitos povos latino-americanos”. Chávez costuma chamar sua linha política de “bolivarianismo”, o que lhe traz bastante popularidade. “Na Venezuela, Bolívar é uma espécie de semideus”, diz Isaac Bigio, da London School of Economics. “Chávez é a favor de uma integração latino-americana e de um Estado mais intervencionista e protecionista, com o objetivo de amenizar as diferenças sociais.” Para o intelectual venezuelano Néstor Francia, autor do livro Antichavismo y Estupidez Ilustrada (inédito no Brasil), Chávez “ressuscitou” Bolívar – ou seja, acabou transformando uma figura histórica em um ser presente no cotidiano. Outro traço comum a Chávez e ao Libertador é o discurso contrário aos Estados Unidos. Recentemente, o presidente boliviano Evo Morales, muito próximo a Chávez, também fez algo que lembrou Bolívar: nacionalizou a exploração do gás natural (e assumiu o controle sobre instalações da Petrobras na Bolívia). Apesar desse ato, Bigio afirma que Morales não compartilha das convicções de seu colega venezuelano. “Enquanto Chávez tem origem no exército, Morales se formou na luta sindical. Ele se proclama mais socialista e indianista do que bolivariano.”

Saiba mais

Livro
Bolívar, el Hombre de América – Presencia y Camino, Juvenal Herrera Torres, Ediciones Convivencias, 2000 - Escrito por um historiador colombiano que dedicou grande parte de sua vida à pesquisa sobre Bolívar.
Site
www.gutenberg.org/etext/8928 - Tem, na íntegra, a ampla biografia Bolívar, The Liberator, do historiador mexicano Guillermo Sherwell.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Os Tudor: um século de poder

Aos 69 anos, Elizabeth I estava cansada, velha demais para os padrões da época e solitária. A "rainha virgem" passou seus últimos meses de vida na cama, recusando qualquer atendimento médico. No leito, a monarca recebeu a visita do arcebispo John Whigtift. Ele tomou suas mãos e lhe falou sobre o paraíso. Elizabeth respondeu retribuindo o aperto de mãos, contente pelo que ia encontrar nos céus. Morreu nas últimas horas de 24 de março de 1603, no palácio de Richmond, no condado de Surrey. "Foi com tristeza que a notícia da morte percorreu Londres na manhã seguinte. A rainha governara o reino por quase 45 anos e não havia deixado descendentes diretos", diz Heather Thomas, historiadora galesa especializada na história de Elizabeth I. Com o fim do reinado, a dinastia Tudor, após 118 anos, chegava ao fim. Os Tudor assumiram a coroa inglesa em 1485. Henrique VII deu início à linhagem que teve como sucessores Henrique VIII, Eduardo VI, Mary I e Elizabeth I. Durante a dinastia, houve o rompimento com a Igreja Católica e a fundação da Igreja Anglicana e a Inglaterra atingiu alto nível de desenvolvimento político, econômico e cultural. “É sob os Tudor que se tem o período mais florescente da expansão e consolidação do poderio britânico, na política européia, no comércio e nas finanças, na expansão ultramarina e na independência religiosa”, afirma Estevão Martins, professor de História na Universidade de Brasília. 

MANOBRAS PELO TRONO 

Henrique Tudor nasceu em 1457 no País de Gales, filho de Edmund Tudor, o conde de Richmond, e Margarida Beaufort, trineta de Eduardo III, rei da Inglaterra entre 1327 e 1377. Embora tivesse direito ao trono, Henrique não pertencia à linha de sucessão direta. Por 30 anos, até então, o poder se alternava entre os Lancaster e os York. Mas, em 1455, quando Ricardo, duque de York e aspirante ao trono, prendeu Henrique VI, rei da Inglaterra e da família rival, deflagrou-se a Guerra das Duas Rosas (a flor era símbolo das duas casas reais). Em 1471, quando Eduardo IV de York subiu ao trono, Henrique Tudor fugiu das famílias em disputa, para a Bretanha. 

Em 1483, com a morte de Eduardo IV, a história mudou. O herdeiro direto seria seu filho Eduardo V, então com 12 anos. Mas seu tio, Ricardo de York, duque de Gloucester, usurpou o trono e acabou coroado Ricardo III. Com a manobra, a família Lancaster passou a apoiar as intenções de Henrique Tudor de virar rei. E, em 1485, Henrique marchou para a Inglaterra. Na batalha de Bosworth Field, matou Ricardo II e se proclamou rei Henrique VII. Para pacificar as famílias, casou-se com Elizabeth de York. E convenceu o papa Inocêncio VIII a criar a Bula da Excomunhão, para punir os que tentassem tomar o trono. 

Do casamento do rei com Elizabeth de York nasceram Arthur, Henrique, Margaret e Mary. Para estreitar laços com os países vizinhos, o monarca casou Margaret com James IV da Escócia e Mary com Luís XII da França. O primogênito, Arthur, ele uniu à princesa espanhola Catarina de Aragão. A cerimônia ocorreu em 1501, quando os noivos tinham 15 e 16 anos. Em 1502, o príncipe morreu de malária e a viúva de Arthur foi obrigada a ficar na corte. O rei não havia recebido parte do dote da princesa e, por isso, não dera a ela todas as rendas previstas no contrato nupcial. Assim, os pais de Catarina não lhe permitiram voltar à Espanha. 

TUDO POR UM TUDOR 

Henrique VII morreu em abril de 1509, aos 59 anos. Sucedeu-o Henrique VIII, nascido em 1491. Com 17 anos, em 1509, casou-se com Catarina de Aragão. No mesmo dia, os noivos foram coroados, na Abadia de Westminster, rei e rainha da Inglaterra. Henrique era culto, atlético e falava vários idiomas. Aumentou a frota de cinco para 53 navios. Mas não era pacífico. Seu reinado foi o que teve mais execuções na história da Inglaterra: 330 mortes, entre 1532 e 1540. 

O rei não conseguiu um herdeiro com Catarina de Aragão. Apenas uma filha vingou, a futura rainha Mary. Entregar a coroa a uma mulher poderia fragilizar o trono e, por isso, Henrique VIII precisava de um herdeiro homem. Nesse meio-tempo, apaixonou-se por Ana Bolena, dama de honra da rainha. “Seu magnetismo sexual e a forma como ela cativou aqueles ao seu redor é bem documentada. 

Foi essa ‘diferença’, bem como sua sagacidade, inteligência e efervescência, que atraíram o rei”, escreveu Richard Bevan, jornalista que trabalha em um roteiro sobre Ana. Henrique quis convencer o papa a anular seu casamento, sob o argumento de que ele era ilegal, por Catarina ter sido mulher de seu irmão. Clemente VII recusou-se, mas, mesmo assim, em 1533, o rei se casou com Ana Bolena. A anulação do casamento com Catarina seria anunciada um mês depois. O papa excomungou o rei, que respondeu rompendo com a Igreja Católica. Criou a Igreja Anglicana, que não obedece a Roma, é chefiada pelo rei e permite o divórcio. A decisão tornou-se oficial em 1534, no Decreto de Supremacia (Act of Supremacy). 

"A separação da Inglaterra da Igreja Católica foi subproduto da obsessão por um herdeiro", diz Heather Thomas. Acontece que Ana também teve uma filha mulher, Elizabeth. O rei envolveu-se então com outra dama da corte, Jane Seymour. Para se livrar da segunda esposa, acusou-a de bruxaria e traição."Eram 8 horas da manhã de 19 de maio de 1536. Vestida com roupão preto coberto por um manto branco, Ana Bolena encaminhou-se para a execução. Não negou as acusações e elogiou seu marido, dizendo que o amava. Foi vendada e esperou poucos segundos até o carrasco lhe cortar o delicado pescoço", afirma Bevan. 

Em 1537, finalmente, nasceu o varão de Henrique, Eduardo. A mãe, Jane, morreu 12 dias depois, por problemas no parto. O rei ainda casou outras três vezes, até morrer em 1547. Considerado o primeiro rei anglicano da Inglaterra, Eduardo VI foi coroado aos 9 anos e governou com um Conselho de Regência. Com ele, a religião ganhou força: em 1549, foi introduzido no país o Livro de Oração Comum (de preces anglicanas), em inglês, língua que se tornou oficial. 

BLOODY MARY 

Em seu leito de morte, o rei foi influenciado por um de seus tutores, John Dudley, a escolher como sucessora Jane Gray, casada com seu filho Guilford Dudley. Perto de fazer 17 anos, o rei morreu de tuberculose e Jane Gray assumiu em seu lugar. A população, no entanto, não aprovou a rainha e exigiu Mary I no trono. Assim, após nove dias, a primeira filha de Henrique VIII assumiu o poder. 

Sua primeira ação foi revalidar o casamento de Henrique VIII com sua mãe, Catarina de Aragão. Filha de uma católica, restaurou o catolicismo e o crime de heresia: opositores seriam mortos, por traição à Santa Sé. Cerca de 300 anglicanos foram queimados como hereges em três anos. Foi chamada de Queen Bloody Mary (Rainha Sanguinária), nome que anos depois batizou um drinque de suco de tomate e vodca. Para piorar sua imagem, casou-se com Filipe II da Espanha. Isso revoltou o povo: significava ameaça à independência e risco de subordinação. Quando ela e o marido formaram uma aliança para lutar contra a França, o descontentamento aumentou, principalmente porque os franceses conquistaram Calais, última possessão britânica na França. Sem filhos, Mary deixou o trono para sua meia-irmã Elizabeth I, em 1558, ao morrer do que dizem ter sido um tumor. 

Em novembro daquele ano, começava um dos governos mais populares e importantes da monarquia britânica: o de Elizabeth, filha de Henrique VIII e Ana Bolena. “Seu reinado é apontado como a Idade do Ouro da história inglesa. Ela se tornou uma lenda em seu próprio tempo de vida, famosa por suas notáveis habilidades e realizações”, diz Heather Thomas. A rainha era astuta. Nomeou ministros de confiança para apoiá-la, e as questões mais críticas levou ao debate no Parlamento. Também restaurou a religião anglicana. 

Tudo ia bem, até a rainha se desentender com Filipe II, seu cunhado. A Espanha era a maior potência da época e Filipe sonhava ser monarca britânico. Católico, pretendia restaurar sua fé na Inglaterra. Quando navios espanhóis foram saqueados por piratas ingleses, prática incentivada pela rainha, Filipe, em 1588, enviou uma frota de 130 navios para tomar o reino. Elizabeth I, então, discursou à tropa: “Sei que tenho o corpo de uma mulher fraca e frágil, mas tenho também o coração e o estômago de um rei – e de um rei da Inglaterra!” Resultado: venceu a Armada espanhola. Em 1600, criou a Companhia das Índias Ocidentais e iniciou a expansão marítima. “Quando ela subiu ao trono, em 1558, a Inglaterra era um país empobrecido, dilacerado por questões religiosas. Quando morreu, era um dos mais poderosos países do mundo”, afirma Heather Thomas. Elizabeth não se casou. Foi assim que ganhou o apelido de “rainha virgem”. Após sua morte, em 1603, de acordo com o testamento de Henrique VIII, assumiu o descendente de Mary, irmã mais nova de Elizabeth. Jaime VI, rei da Escócia, tornou-se Jaime I da Inglaterra, iniciando a era dos Stuart.

Hitler quase ganhou Nobel da Paz em 1938

A notícia é no mínimo impressionante Adolf Hitler esteve para ganhar o Premio Nobel da Paz em 1938. Da paz? Sim. Pelo menos foi o que noticiou a edição de sábado do jornal espanhol “ABC”, num artigo assinado pela sua correspondente em Estocolmo, Carmen Villar, citando uma rádio sueca.
Os contornos da história, ainda pouco claros e bastante confusos, relatam que a ideia da nomeação do Führer partiu da mente do deputado sueco E.G.C. Brandt.
O comité norueguês, por seu turno, terá aceite e ponderado tal ideia, mas a distinção acabaria por ser entregue ao Instituto Nansen, uma organização dedicada a investigações diversas.
Ainda segundo o “ABC”, apesar de Hilter não ter recebido os votos suficientes, a sua nomeação desencadeou acesas discussões. Havia quem defendesse a ideia de que Hilter merecia o Nobel da Paz devido às “conversações sobre a paz na Europa que manteve com o britânico Chamberlain”.
Acontece que todos os detalhes relacionados com este insólito caso estiveram, aparentemente, arquivados e fechados a sete chaves durante diversos anos, tendo, posteriormente, desaparecido da história dos prémios Nobel “como por arte e magia” depois do fim da 2.ª Guerra Mundial.
Entretanto, um responsável do Museu Nobel, Andres Baranet, afirmou que o deputado Brandt “devia estar louco” e que tentou retirar a nomeação, meses mais tarde, já em Janeiro de 1939, intenção que terá sido negada pelo Comité Nobel.
Segundo uma série de documentos escritos por Gustav Henriksen, professor da Universidade de Uppsala (e membro do comité), a escritora judia Gertrude Stein, que escreveu o livro “As grandezas e qualidades do Führer”, foi quem incentivou a campanha para a nomeação de Adolf Hitler, declarando taxativamente a seguinte sentença “A supressão dos judeus é sinónimo de paz”.
Perante tal cenário, Andres Baranet afirma que tudo isto é “incompreensível”, uma vez que “já desde 1933 que Hilter teria começado a demonstrar a sua faceta nazi horrível”.

A incrível história de Jean Cointac


Se tivesse nascido nos tempos atuais, é provável que se tornasse um polemista do quilate do britânico Christopher Hitchens (para quem Deus é um problema), falecido este ano. Mas vivendo em 1555 nas terras onde seria fundado o Rio de Janeiro, o francês Jean Cointac não enfrentou menos confusão. Controverso misto de herói e anti-herói para portugueses e franceses, conseguiu o feito de brigar com os dois lados e perturbar a paz por onde passava. Cinco séculos depois ainda se discute seu papel no primeiro século do Brasil Colônia.
Entre 1555 e 1557, dois navios franceses, com 600 passageiros, chegaram à Baía de Guanabara. Comandada pelo militar Jean de Villegagnon, a expedição tinha o objetivo de fundar um paraíso religioso. Enquanto protestantes, inspirados nas teses de João Calvino e do alemão Martinho Lutero, se digladiavam na França, Villegagnon organizou a expedição com a promessa de um lugar onde os dois grupos pudessem conviver. Os imigrantes ergueram o forte Coligny na Ilha de Serigipe, em frente à atual Praça XV, hoje chamada Ilha de Villegagnon, e deram início à França Antártica. Passageiro da segunda embarcação, o francês Jean Cointac se destacava pela erudição.

Doutor pela Sorbonne, falava hebraico, grego e latim e conhecia a Bíblia, ciência e filosofia. Segundo seu próprio relato, reproduzido pelo historiador Capistrano de Abreu em Ensaios e Estudos, vinha de família nobre, nascido em Bolés, na região de Champagne. Sem nenhuma modéstia, se orgulhava de conhecer a França, Itália e Espanha e de “nunca ter achado quem se igualasse a ele em gramática, retórica, dialética, lógica, física e filosofia”. Também se considerava grande entendedor de temas religiosos.

Entre homens simples - artesãos, alguns ex-prisioneiros e aventureiros - veio ao Brasil para ser responsável pela aplicação das leis. O que ninguém contava era com seu talento para se meter em confusões. “Além de livre-pensador, era polemista inveterado”, diz Ivo Pereira da Silva, da Universidade Federal do Pará (UFPA), autor de As Aventuras e Desventuras de João de Bolés: um Calvinista Renascentista nos Trópicos do Século XVI. Além de Jean Cointac, Jean de Bolés e João de Bolés são outros dos nomes pelos quais ficou conhecido.

Na Guanabara, não se restringiu à função de organizar leis. Reivindicando o papel de especialista em questões religiosas, passou a desafiar ministros protestantes em temas como o significado da hóstia e do vinho. Para perplexidade dos adversários, defendia o retorno a algumas práticas católicas. Criticou a falta de cerimônia nos rituais, celebrados por pastores em roupas comuns. Persuasivo, envolveu Villegagnon na briga. “Os dois não aceitavam todos os pontos do papado. Dos alemães, queriam conservar o que achassem bom, acrescentando e tirando da doutrina conforme lhes ditava sua fantasia”, criticou Jean Crespin em seu História dos Mártires, sobre a perseguição aos protestantes.

Por causa das discussões religiosas, o ambiente na França Antártica azedou, reproduzindo as brigas que varriam a Europa. Havia o grupo dos calvinistas, o de Cointac e o de Villegagnon, que no meio da polêmica radicalizou e se reconverteu ao catolicismo, todos acusando uns aos outros de heresia. Seis meses depois, o comandante perdeu a paciência com o auxiliar atrevido e expulsou-o do forte. Jean Cointac teve de ir viver com seus poucos seguidores onde hoje fica o bairro carioca da Gávea.

A situação na Ilha de Villegagnon piorava, a ponto de um emissário ter sido enviado à França para perguntar ao próprio Calvino sobre qual orientação seguir. O comandante passou a perseguir os calvinistas, e enforcou três deles. Cointac acompanhou tudo de longe. Mas em 1558, convencido por Villegagnon, aceitou participar, com alguns franceses e índios tupinambás, de um ataque a Bertioga e São Vicente, colônias portuguesas no litoral paulista. Começava sua grande aventura. Cointac, mais tarde, diria que não concordou com o ataque, pois, embora tivessem problemas com os índios, que escravizavam para trabalhar nas plantações de cana-de-açúcar, os portugueses jamais haviam incomodado os franceses. Cointac foi enviado para espionar os portugueses. Ao chegar, porém, avisou sobre o ataque iminente e virou herói - passou a viver entre os colonos.

A vila de São Vicente, ocupada por portugueses, índios e padres, tinha poucas casas, igrejas e engenhos de cana-de-açúcar, além de um colégio jesuíta. Era um lugar relativamente tranquilo onde, como no resto do Brasil colonial, o poder da Igreja Católica não enfrentava a mesma contestação vista na Europa. A chegada de Cointac mudou o cenário. Se entre os protestantes havia provocado escândalo por defender práticas do catolicismo, entre os católicos fez o contrário: tornou-se advogado de Lutero e Calvino, atacando o celibato e investindo contra o papa, a quem acusava de “tirar dinheiro dos pobres”. Também falava mal dos santos, da missa e até da ideia de um purgatório.

"Vistas hoje, essas questões parecem bobagem, mas na época eram a discussão intelectual mais importante", explica o historiador gaúcho Voltaire Schilling. "Há de se lembrar que a França viveu 40 anos de guerras religiosas, e tanto o rei como outros grupos usaram a religião como desculpa para perseguir adversários. Ser um livre-pensador nessas circunstâncias era perigoso." Para quem manifestava tais opiniões, havia o risco de enfrentar a Inquisição, instalada em Portugal desde 1536. Mas o francês não se intimidou. Dizia-se nobre, usando o título de "Senhor de Bolés". Logo São Vicente estava em polvorosa. O jesuíta Manoel da Nóbrega até achou graça no estrangeiro. José de Anchieta, porém, não via a situação com bom humor, reclamando de um francês "muito culto, versado em grego e espanhol" que, tendo chegado "com três companheiros idiotas", derramava "a peçonha luterana" na colônia. Incomodado mesmo estava Luís da Gram, rígido padre provincial de São Vicente. Irritado com o atrevimento de Cointac, que o desafiava em público, pregava contra o "herege" e o denunciou à Inquisição.

Cointac deixou São Vicente e visitou Pernambuco e Bahia, propagando suas opiniões atrevidas. Em Salvador, frequentava a casa do governador-geral Mem de Sá, que o convidou a participar, em 1560, da expedição para expulsar os franceses da Guanabara. Mesmo dizendo-se “enojado” com a missão, concordou após saber que o rei da França, Henrique IV, havia dito que não tinha nada a ver com Villegagnon.

O Senhor de Bolés foi fundamental para a expulsão dos franceses. “Como viveu no Forte Coligny, Cointac conhecia bem a estrutura de defesa”, afirma Ivo Pereira da Silva, da UFPA. Segundo o historiador Capistrano de Abreu, Cointac ensinou aos portugueses como entrar na fortaleza e se apoderar do paiol de munições. Cercados, os franceses fugiram para a mata, deixando o forte para o inimigo.

Prestigiado, Cointac voltou a São Vicente com Mem de Sá e depois partiu para Portugal. Chegava a hora, calculou, de receber a recompensa por suas façanhas. Não sabia que Luís da Gram havia apresentado nova denúncia por heresia. O Senhor de Bolés foi preso quando o navio fez uma parada na Bahia. Cointac conseguiu anular boa parte das acusações alegando que Luís da Gram era seu desafeto. Em 1563, ao saber que seria mandado para Lisboa escreveu uma longa carta ao bispo criticando sua perseguição. Dom Pedro Leitão ficou tão furioso que o prisioneiro só não foi queimado vivo porque estava sob jurisdição da Inquisição.

Em Lisboa, continuou a se recusar a admitir a culpa. Só às vésperas da sentença aceitou as acusações e pediu perdão. De alguma maneira impressionou seus algozes. A pena foi branda: renunciar à doutrina protestante e rezar sete salmos todas as quartas e sextas-feiras, além da proibição de deixar Portugal. Viveu por alguns meses no Mosteiro de São Domingos em Lisboa, tendo, segundo os monges, comportamento exemplar. Apenas na década de 60 um documento descoberto na Biblioteca Nacional de Lisboa revelou o verdadeiro destino de Jean Cointac. Em 1569, por alguma razão ele se encontrava em Goa, na Índia, quando mais uma vez caiu nas mãos da Inquisição sob a acusação de heresia. Depois de três anos de processo, foi queimado vivo em 20 de janeiro de 1572. 


Saiba mais

Livro 

Villegagnon e a França Antártica: Uma Reavaliação, Vasco Mariz e Lucien Provençal, Nova Fronteira, 2001